Apesar de muitos acreditarem que o turismo é um setor meramente exploratório, tem-se construído narrativas diferentes para a atividade ao longo dos anos. Em meio a um cenário de insustentabilidade global, há-se que impulsionar diferentes meios de vivenciar tanto a atividade turística quanto demais práticas, onde a humanidade consiga coexistir e mesmo integrar-se ao ambiente de maneira saudável e equilibrada.

O turismo, enquanto um segmento que mistura-se aos espaços, tem fundamental participação neste processo. É imprescindível que os setores envolvidos na área bem como seus realizadores busquem por esse bem estar ambiental e coletivo.

Neste sentido, o turismo comunitário, ainda que timidamente, vem crescendo e recebendo mais e mais turistas. Seja em suas vilas de pescadores, reservas indígenas ou quilombolas ou mesmo em zonas costeiras de pouco trânsito.

Se você se interessa por turismo sustentável e como reduzir os impactos das suas viagens, não deixe de conferir esse publicação especial.

O que é o turismo de base comunitária? 

Esse segmento de turismo põe as comunidades receptoras como agentes principais e administradoras da atividade turística local. A própria comunidade organiza-se e, de acordo com suas demandas e recursos, disponibiliza produtos e experiências turísticas. Estes focados primordialmente nas experiências e trocas entre residentes e turistas e na educação ambiental.

Diferentemente do turismo convencional, o de base comunitária tem um caráter maior de integração do visitante com a população, os costumes e a cultura local, bem como com o território. Este segmento ainda visa uma distribuição de renda o mais igualitária possível entre a comunidade receptora. 

Os moradores dessas comunidades não deixam suas atividades originais para se engajarem no turismo. Ao contrário: o processo acontece de forma simbiótica, sendo o turismo algo que soma ao modo de vida dos residentes. Assim, possibilita aos viajantes conhecimento sobre suas terras e lutas e uma renda extra para os nativos.

O turismo de base comunitária é muito oriundo do amor de residentes por sua terra. Sendo assim, distancia-se completamente da especulação imobiliária e do turismo de massa.

No Ceará, as comunidades costeiras que realizam esse tipo de turismo fundaram a Rede Tucum – Rede Cearense de Turismo Comunitário. A Rede atua desde 2008 auxiliando e dando suporte acerca das zonas costeiras cearenses que realizam a atividade. A Rede Tucum possibilita, segundo eles próprios “uma oportunidade de conviver com ambientes preservados, conhecer os modos de vida de comunidades tradicionais e realizar intercâmbios culturais”.

As comunidades associadas à Rede Tucum estão presentes tanto no litoral leste quanto no litoral oeste. A Rede já soma mais de 10 comunidades associadas.

Conheça os principais destinos e comunidades que praticam o Turismo Comunitário no Ceará e descubra uma nova forma de viajar pelo estado.

Ponta Grossa – Icapuí

Ponta Grossa em Icapuí -CE/ Turismo Comunitário
Ponta Grossa em Icapuí -CE – Foto: Levarti

A praia de Ponta Grossa está situada no município de Icapuí e fica a cerca de 200 km de Fortaleza . Este é um dos destinos de base comunitária que mais vem crescendo no estado. A comunidade pesqueira do extremo leste cearense é habitada em suas 200 pessoas da mesma família: a Crispim.

A comunidade conta com pousadinhas super aconchegantes e barracas de praia que servem pratos excelentes em frutos do mar. Ponta Grossa recebe inclusive um tradicional festival de lagostas. O cenário paradisíaco e praticamente intocado da praia garantem vistas certamente inesquecíveis. 

Aliás das enormes dunas, algumas chegando até 50m de altura, saíram vários objetos e artefatos históricos, tais como: louças, moedas, dentre outros. Esses objetos são datados a partir do século XVI, das navegações. Os moradores daqui garantem que foi daqui que o Brasil foi descoberto, mas há controvérsias.

Todos esses objetos estão na residência de um dos Crispim e uma das principais lideranças da comunidade. Dentre os atrativos de Ponta Grossa estão passeios de buggy e de barco além de uma trilha que finda no topo da duna. O ponto alto é uma vista simplesmente belíssima, principalmente ao pôr do sol.

Tremembé – Icapuí 

Praia de Tremembé, Icapuí CE
Praia de Tremembé, Icapuí CE – Foto: Hotel Casa do Mar

Do mesmo modo,  no lado extremo leste do Ceará, ainda no município de Icapuí, situa-se a praia e a comunidade de Tremembé. Uma das praias mais intocadas e desertas do estado.

Tradicional vilazinha de pescadores com areia branquinha, a praia definitivamente é uma opção para quem procura por calmaria e descanso. Embora não exista quase nenhuma estrutura turística, conta com pousada onde é possível fazer o day use.

Ao mesmo tempo, algumas pousadas da comunidade contam com pequenos parques aquáticos, por exemplo. Esta pode ser uma excelente pedida para quem vai com crianças. A praia ainda favorece a prática de esportes, tais como o kitesurf.

O município de Icapuí é antes de mais nada conhecido pelos pescados e as delícias compostas por eles na região. Tremembé não fica atrás, sendo seu grande trunfo a pescaria de consumo da lagosta. 

Prainha do Canto Verde – Beberibe

Jangadeiros na Praia do Canto Verd
Jangadeiros na Praia do Canto Verde – Foto: Blog Mar sem fim/ O Estado de São Paulo

A Prainha do Canto Verde é principal expoente no estado do Ceará na luta pelo território. Hoje reserva extrativista, a Prainha do Canto Verde é amparada por lei federal que impede a venda dos imóveis locais. Dessa maneira, os residentes conseguem proteger os recursos naturais da região, bem como seus costumes e modo de vida.

A estrutura de hospedagem, como em boa parte das comunidades que trabalham o turismo comunitário, dá-se através das casas de pescadores e outros habitantes.

Dentre os atrativos, a Prainha conta com passeio de catamarã e duas trilhas: a Trilha ecológica do Córrego do Sal e a trilha histórica e natural da Prainha do Canto Verde.

Desenvolvendo o turismo comunitário desde 1998, o despontar e as conquistas da Prainha do Canto Verde enquanto uma comunidade pesqueira que disse não à interferência da especulação imobiliária foi fundamental e serviu de espelho para outras comunidades que ainda hoje lutam por essa autonomia, bem como por sua terra. 

Batoque – Aquiraz

Primeira reserva extrativista do Ceará, reconhecida em 2003, a comunidade do Batoque fica em Aquiraz, região metropolitana de Fortaleza. Desde então, a praia vem sendo administrada junto aos moradores pelo Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio). 

O Batoque traz uma proposta diferente de integração com a natureza. Lá prioriza-se a educação ambiental e a integração moderada e consciente da população local e dos visitantes com o território.

São 320 famílias na região, vivendo principalmente da pesca e tendo o turismo comunitário ainda como um forte aliado. Entre o que pode-se encontrar por lá, destacamos também a culinária local, onde primordialmente os ingredientes vem diretamente da agricultura familiar realizada na reserva. Sendo os pratos servidos na beira do mar ou da lagoa do Batoque, uma delícia imperdível.

Jenipapo-Kanindé – Aquiraz

Semelhantemente no município de Aquiraz, temos ainda outra opção de turismo comunitário: no território indígena dos Jenipapos-Kanindé, uma das nove etnias indígenas do estado do Ceará.

Vivendo às margens da Lagoa da Encantada, os Jenipapos tem seu território reconhecido legalmente desde 2000 através de demarcação legal.

Existe uma curiosidade e tanto sobre o povo Jenipapo-Kanindé: é daqui a primeira cacique mulher de todas as comunidades indígenas do Brasil. A cacique Pequena é um exemplo de liderança indígena no Ceará. Recentemente afastada, sua filha, a Cacique Irê é quem está à frente da aldeia.

A comunidade se sustenta através da pesca, da agricultura familiar e do artesanato. O turismo veio para somar à comunidade, tanto em recursos como em possíveis novos aliados à luta desse povo tradicional.

Dentre os atrativos do território estão uma duna de mais de 90 metros de altura, sendo o acesso à ela através da trilha do Morro do Urubu. Ao final deste percurso, temos como recompensa um refrescante banho na própria Lagoa da Encantada. 

Caetanos de Cima – Amontada

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Praia de Caetanos de Cima, Amontada – Foto: Lia Campos

Outra comunidade costeira que conseguiu através de muita luta o reconhecimento de seu território como assentamento – e, ainda nos anos 80 – foi a praia de Caetanos de Cima. Situada no litoral oeste do Ceará, no município de Amontada, a praia de Caetanos é das mais bonitas da região. 

Com um pouco mais de 200 famílias, Caetanos segue preservando as tradições de seu povo. Como exemplo, a tradição da Dança de Coco, praticada por moradores de todas as idades. Ainda são incentivados e praticados a capoeira, o batuque, a música e o teatro.

Assim também, o Ministério da Cultura uniu-se à comunidade dos Caetanos de Cima para incentivar tais atividades, através do projeto Ponto de Cultura: Abrindo Velas, Pescando culturas, contribuindo dessa forma para o fortalecimento das raízes locais.

Do mesmo modo, a hospedagem em Caetanos de Cima também é familiar, ou seja, geralmente nas casas das famílias residentes. Existem ainda pequenos chalés e espaços para campings. O Restaurante Delas é bem conhecido.

As belas lagoas de Caetanos de Cima cercadas por dunas de areia branca e fininha deram a essa localidade a fama de “lençóis cearenses”. E com toda a certeza vale muito a pena conhecer esse paraíso quase intocado e tranquilo no oeste cearense. 

Curral Velho – Acaraú

Semelhantemente, a comunidade de Curral Velho, em Acaraú, também tem seu histórico de luta. Uma atitude dos próprios moradores de construir em meio a região de carnicultura (criação de camarão em cativeiro) um Centro de Educação Ambiental e Turismo Comunitário chamou atenção. Graças a essa iniciativa fundamental, foi-se então preservada uma área de mangue, a última da região sobrevivente a esta prática.

A comunidade do Curral velho fundamenta-se em atividades como a pesca e a marisqueira e encontrou no turismo comunitário um forte aliado para expansão e divulgação das suas lutas e conquistas pela preservação e equilíbrio dos ecossistemas locais. 

Assim sendo, as atividades que podem ser realizadas neste povoado incluem visita ao próprio Centro de Educação, chamado Encante do Mangue. Similarmente, também acontecem visitas de barco ao mangue. Estas são conduzidas por guias locais que falam sobre as espécies e ecossistemas existentes na localidade. O turista pode ainda deliciar-se na tranquila praia de Arpoeiras, onde pode ainda ter uma pequena mostra de técnicas de pesca artesanal. 

Tatajuba – Camocim 

Lagoa de Tatajuba em Camocim
A Lagoa de Tatajuba é um dos atrativos mais procurados por quem viaja na região de Camocim e Jericoacoara

Inesperadamente, ainda na década 80, a comunidade de Tatajuba, então cercada por muitas dunas, foi encoberta por elas e teve que “se mudar”. Assim sendo, originou-se quatro vilas: Nova Tatajuba, Vila São Francisco, Baixa da Tatajuba e Vila Nova. 

Este paraíso preservado e cercado de dunas e lagoas, essas que às vezes encontram o mar, é um passeio sem dúvida marcante para quem o realiza. Tatajuba fica ao ladinho da famosa e super badalada Vila de Jericoacoara. É assim, inclusive, que muitos turistas tem descoberto esse paraíso.

Recentemente a comunidade da Tatajuba integrou-se à Rede Tucum e ao turismo comunitário e à Acomota, sua associação de moradores, tem desenvolvido projetos de educação ambiental e também de hospedagem familiar. Os residentes ainda construíram de forma coletiva chalés para receber os turistas que vem à região. 

O acesso à Tatajuba se dá por meio de balsa ou, como em Jericoacoara, apenas através de veículos 4×4, visto que seu terreno também é bastante arenoso.

Assentamento Coqueirinho – Fortim 

Através de muita luta pelo reconhecimento de sua terra, o Assentamento Coqueirinho ganhou força em atividades inesperadas. Foi nesse processo de reconhecimento e pertencimento que a comunidade começou a plantar e colher sua própria comida. 

Assim sendo, perceberam o poder que tinha suas produções tanto alimentícias quanto de cosméticos. A partir disso, a comunidade integrou-se à Rede Tucum e passou a tornar essas habilidades da comunidade um produto e meio de resistência e luta.

Além das hortas, existententes em cada pedaço de terra do assentamento, a comunidade também passou a vender na Bodega – Nordeste Vivo e Solidário (uma rede de socioeconomia solidária entre os produtores rurais). Entre os seus produtos destacam-se os de higiene pessoal e cosméticos. Por exemplo: sabonete, shampoo, condicionador e loção para espinha.

Como acontece no turismo comunitário, o principal atrativo é a própria comunidade e seu modo de vida. Como resultado disso, a forma e os espaços de cultivos locais estão entre tais atrativos, assim como os espaços de criação de animais. 

A região ainda possui uma bela vegetação e mata fechada. Similarmente, a culinária é outro destaque delicioso para quem visita o assentamento. A comunidade também manifesta-se e conta sua história para os viajantes através do teatro, da dança e da música. 

Quilombolas do Cumbe – Aracati 

Passeio de barco pelo Canal do Amor/Comunidade Quilombolas do Cumbe.
Passeio de barco pelo Canal do Amor/Comunidade Quilombolas do Cumbe.

O Quilombo do Cumbe fica em Aracati e, segundo os próprios “O turismo de base comunitária para nós representa muito mais do que um meio de renda extra, mas principalmente, uma forma de divulgarmos nossa realidade, mantendo viva nossa cultura e fortalecendo nosso movimento de resistência e preservação da biodiversidade e do nosso modo de vida tradicional”. 

O Cumbe foi certificado em 2014 pela Fundação Cultural Palmares e abriga mais de 160 famílias em suas terras. O histórico de muitas lutas, comum em toda comunidade tradicional brasileira, rendeu a esta comunidade certa visibilidade. Como resultado, o turismo comunitário também chegou como uma lacuna a mais para integrar a comunidade e sua luta à outras pessoas e vivências.

Dentre os atrativos da comunidade do Cumbe, estão por exemplo os passeios de barco. Dentre eles destacam-se o passeio pela foz do rio Jaguaribe, assim como também para as Ilhas do Jaguaribe. É também possível experimentar essa vivência de barco no passeio que vai até o Canal do Amor, este ainda passando pelo manguezal da Gamboa.

O território do Cumbe possui também opções de trilha para os viajantes: a trilha do rio e mangue e a trilha arqueológica. A primeira parte da Associação Quilombola do Cumbe pela manhã ou tarde e vai dos limites do manguezal até o rio Jaguaribe.

Semelhantemente aos demais destinos, a forma de hospedagem é familiar. A comunidade ainda possui espaço para campimg, aluguel de casas inteiras para eventos como o carnaval (o de Aracati é dos mais badalados do Ceará) e ainda passeios à cavalo.

Vila da Volta – Aracati

Mais uma comunidade situada no município de Aracati, sendo essa à beira do rio Jaguaribe. A Comunidade Rural de Vila da Volta abriga mais de 1.200 habitantes. Similarmente a tantas outras comunidades costeiras do Ceará e do Nordeste, a principal atividade é mesmo a pesca artesanal. 

A comunidade ainda vive de artesanato e integrou-se à Rede Tucum recentemente, em 2013. Desde então, vem construindo novas narrativas na sua própria história de luta por sua terra.

Além de ser rodeada pelo rio Jaguaribe, a comunidade possui também como atrativo sua própria forma de vida. Desse modo, a agricultura familiar e a criação de animais também são interessantes para se conhecer.

Um evento tradicionalíssimo organizado por moradores na Volta é a Regata, que já dura mais de 20 anos. O momento mais aguardado do festival é a corrida de barco, juntando mais de 2 mil pessoas de fora da Vila. Esta corrida chega a durar mais de 3 horas. Curiosamente, todos os veículos saem enfeitados e pintados com o nome de cada equipe. Os vencedores de todas as três modalidades do evento recebem dinheiro e outros prêmios.

Finalmente, a Paixão de Cristo, evento popular no país todo e aqui não é diferente. Ocorre uma grande peça teatral de rua envolvendo diversos moradores, a maioria

Assentamento Maceió – Itapipoca 

A história do Assentamento Maceió, localizado em Itapipoca, teve início ainda nos anos 80. Já havia sondagem da especulação acerca dos terrenos costeiros na época. O Assentamento abriga cerca de 800 famílias atualmente.

Entre suas atividades estão a pesca, a agricultura e a pecuária, todas de modo familiar. O artesanato e o turismo estão também inclusos. O Assentamento, em seu território, possui dunas, riachos, lagoas, zona de praia e pós praia.

Em julho de 2007, a comunidade, em resposta às investidas do empresariado organizou o Dia de Turismo Comunitário Justo e Solidário. A comunidade também possui um projeto de cultivo de algas, que também ajuda no orçamento das famílias locais. A renda é um dos artesanatos mais populares também por aqui. 



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